As cristaleiras com chapéu de soldado, por Luciana Aglantzakis

01-As cristaleiras com chapéu de soldado

Numa sexta-feira em que Palmas nasce lindamente com o sol escaldante de cor-de-ouro  tive a missão de apoiar moralmente minha colega Juridisse em uma guerra diária do Direito do Consumidor; missão digna desta terra retumbante.

Tudo começou devido aos atrasos da lide diária, compromissos que vamos assumindo para melhorar o bem-querer. E ela quis certo dia que era a confecção de dois móveis estilo “ Cristaleira” para guardar seus copos de cristal advindos de uma viagem de Navio, pois eles percorreram oceanos de Paris ao Brasil e tiveram a insensatez de se esconderem em móveis que não mereciam o seu quilate.

Neste desdém,  o marceneiro Hélio atrasa em esculpir os dois móveis   e o motivo seria um chapéu de soldado acrescido a personalidade dos marceneiros de nem sempre atender os chamados com o horário e tempo definidos por seus clientes.

Juridisse usava uma saia-de-onça e um scarpin de onça e logo pela manhã embarcou-me no seu Fusion para uma breve corrida no Bairro do Lago-Norte em Palmas e   verificar in loco na marcenaria do senhor Hélio se os dois móveis tinham sido esculpidos  no prazo definido no contrato.

Ela estava transmutada numa onça pintada, e também estava pintada, pois seus lábios eram aformoseados com batom vermelho e seu olhos estavam com uma linda  máscara negra da Lupo, pois a onça estava disfarçada. E lá fomos nós com a coragem e vontade de salvar os cristais na oficina de marcenaria.

Imagine que a visita foi breve e sem graça. Do mesmo jeito que fomos, voltamos. Nem armário, apenas vivia no local pranchas e pés de cadeira  pintados de ouro, pois os dois móveis dela  segundo explicações dos funcionários daquele estabelecimento, e depois explicações do senhor  Hélio, estavam inconclusos, pois estes foram  cortados em outra marcenaria e seriam levados às 18 horas da tarde, último dia definido no contrato.

No caminho de volta da marcenaria, Juridisse inicializa um roteiro de conflito digno de muitos brasileiros: rescisão contratual e Procon. E digo para ela que o Procon não é um bom lugar em tempo de coronavírus.

Ela  zanga, e liga para Pedro, Gerente do Bradesco, responsável pela administração de seu  Cartão de Crédito pois queria porque queria cancelar a compra e as parcelas ainda faltantes.

Esta ideia não vinga, pois quando compramos por prestações, o cartão não admite cancelar o contrato, pois a compra foi paga à vista ao credor  e  o problema é do consumidor. Terceiros sempre se esquivam, mas sempre querem se dar bem, até mesmo em relações de consumo.

Uma metamorfose está no ar. Eu sou uma testemunha de algo anormal que surge no corpo e alma de minha amiga.

Encarnada com uma saia de onça e um scarpin de onça,  seu lado onça desgarra, transmuta-se.  E converso com ela que considero que ela é uma onça transmutada, transmudada e fico com dúvidas qual é a palavra correta para defini-la como uma mulher-onça.

Decidimos que a palavra mais coerente é transmutar, mas decido que a situação merece uma consulta no Dicionário.

Transmutar, verbo transitivo direto, bitransitivo e pronominal. Fazer com que fique diferente. Parecido com um termo que penso sozinha: “ Transmudar”. Este já tem outro significado que significa mudar de posse ou de domínio, passar, transmitir e segundo o dicionário pode também significar  alterar-se, transformar-se. Tem até uma frase no dicionário da seguinte forma: “ O sucesso profissional transmudou-a”.

Hélio liga no telefone celular e diz que está na quadra 110 sul e demora demora...

A onça e eu  ficamos no aguardo. Seria uma tocaia, coitado dele. Não penso, agora só deve prevalecer o instinto animal. Hélio é uma caça e toda caça demora, mas o bote de onça diga-se de passagem é mortal!

A fera exige explicações e o senhor disse que é enrolado e pede que eu defina outro predicado. Digo: ‘ atribulado’, pois tive a infeliz ideia de indicá-lo para confeccionar duas obras de arte que se Deus quiser não podem se transformar em dois pesadelos.

Este informa as medidas dos dois móveis, Juridisse discute a profundidade, largura, cor, tamanho das prateleiras, número de prateleiras e descobre que a demora toda se deu por causa de um chapéu de soldado  que ainda não foi confeccionado.

Ela disse que ele não foi sincero, pois não informou que sua marcenaria não possuía o maquinário especializado para fazer chapéus de soldado.  E ela fica enfurecida com a foto do Whatzapp do móvel, enviada pelo marceneiro, devido que a imagem apresentada não era aformoseada com o chapéu do soldado.

A conversa flui, mas os ânimos são de uma onça feroz que exige um móvel na forma contratada, e penso que ela está correta. Contudo, o senhor marceneiro debate que seria melhor modificar a fachada contratada na confecção das s cristaleiras  cuja forma técnica definida por este é denominada de  “pirâmide invertida”, detalhes que existem em outros dois móveis de sua sala de  visitas, e que certifico com uma passada de olhos.

Juridisse enfurece!. Como pode ser uma pirâmide invertida, quero as cristaleiras com  chapéu de soldados!

Minha tarefa ali seria  ficar calada, e  o marceneiro tem que se defender com sabedoria; a situação era desfavorável por motivos que deu causa. Ele prefere mudar o script da cena. Descobre um móvel pequeno que está doente na sala. Ele e Juridisse reparam que o móvel  inchou pois a prateleira dele não era de madeira e Hélio disse que tem que levá-lo para fazer nova prancha, pois o MDF estragou e os marceneiros da França a engabelaram porque vendeu um móvel dizendo que era completo de madeira, contudo era inverdade.

 Surgem ainda  fitas e outros móveis doentes na cozinha , e esquecem  por um instante das duas  Cristaleiras e do detalhe que embelezaria os dois móveis, pois teriam que terem o bendito  chapéu de soldado. Depois Hélio lembra-se que na cozinha tem café. Juridisse o lembra que só tem café se ela estiver com vontade de fazer café e onça não faz café, ora bolas!

A conversa flui e Hélio diz que deve sair, pois tem outros compromissos. Convido Juridisse para um almoço, e o dia não acaba, fico ansiosa pelo início da noite, pois no início deste artigo ficou acordado que estes móveis seriam entregues às 18 horas da tarde.

Na minha casa, Napoleão o meu cão coragem a recebe sem medo, pois Juridisse não era mais  onça. Ali, ela transmuda, transmuta, sei lá, Vira de novo  a mulher que se denomina de  Juridisse com dois s, e que escrevo errado pois costumo pensar que é com C, de tanto escrever a palavra Jurídico.

Será que o chapéu de soldado virá nos móveis? Será que Hélio vai realmente fazer duas lindas cristaleiras e será que a onça vai saber fazer um delicioso café?

Quem sabe?!

Torço que sim!. E de carteirinha, na plateia. Ninguém merece ter uma pirâmide invertida na cabeça, nem que seja de madeira, com três ondinhas. E assim torço silenciosa pelas distintas cristaleiras.

 

 

*Juíza de Direito Luciana Aglantzakis; Membro da Academia Palmense de Letras (APL)

Luciana Aglntizask* - 24/03/2021

COMENTÁRIOS

 Nome:
 E-mail:
 Texto:
Comentários (0)
  • Nenhum comentário publicado.