A MENINA SEM GRAÇA E A MENINA DO INSTAGRAM

Os tempos pertencem aos homens, e estes homens estão sem tempo de olhar para os sem graça. E a tristeza vem imperando nos lares, nos altares e talvez nos mares que as ondas se rebelam e resultam nos tsunamis.

Vou iniciar uma estória de mentira, mas bem que possa ter algum ponto de contato com os entrelaces de horas que lhe perpassa, seja em dias de chuva, ou de sol intermitente.

Eram uma vez duas meninas, diferentes, de mundos diferentes, com a única particularidade que não eram ETs, o sangue era vermelho, e tinham que se alimentarem todos os dias senão poderiam desmaiar.

Numa cidade litorânea de sol poente, que costuma nascer cedo advém ao mundo a menina com graça que perdeu o viço de tanta ingratidão mundana que perdeu a  graça. Ela era bela, branca e rosada, mas no seu quarto não tinha lembranças para convidados e nascia em uma família que estava ali misturada ao acaso. A menina iria morar num apartamento minúsculo e teria que compartilhar um parquinho com areia e larva migrans de gato, pois o pai não era lá muito rico, e também não teria tempo para brincar com a criança. Ela que se quisesse, descesse a escada e se aventurasse num parquinho sujo, pois era o máximo que poderia ter de graça, por enquanto, naquela vida. A criança era bem observadora, nada chorona, pois as choronas pedem graça o tempo todo e conseguem infernizar os que lhes cercam.

Do outro lado do mundo, num país rico e distante, nasce outra menininha. Era magrinha, sem gracinha, feinha, mas que tinha pais perfeitos e, logo na maternidade, as visitas, vários  convidados Vips da sociedade recebiam de visita e de presente um livro de estórias e vários biscoitinhos e licores na recepção do quarto da maternidade de socialites.

Ela receberia um tratamento de desenvoltura e respeito já nos   primeiros meses iniciais com  nove bolos mensais de mesversário, invenção de mães ansiosas que nunca irão se acostumar com o envelhecimento dos filhos. E haja  mês versários de morango, chocolate, baunilha, papai Noel, super man, Branca de Neve, Minnie, um toque de flores. A criança teria um enxoval de roupas de seda e seus pais comprariam um parquinho temático colorido de plástico, que ficaria embelezado por uma grama artificial de luxo para que a criança não se arranhasse.

A menininha sem graça aprenderia   a falar para não passar fome e logo de cara ficaria magra igual ao vento, transparente e criada ao relento, seus pais fariam no máximo um aniversário anual e se quisesse teria o direito de comprar duas roupas ao ano, seja no Natal e no Dia do Aniversário, pois a lógica era para quê comprar roupa de menino que logo se estraga.

Ninguém lhe enxerga e chora calada,  escondida, atrás das portas, pois vira um bichinho do mato.

Feita de tanta beleza, o mundo a olhava com desprezo. Gostava de ler e conversar com as bonecas. Talvez, estas, eram  mais sensíveis que seus pais, apesar de serem bonecas!. Opa,  esqueci  de dizer  que naquela casa os homens mandavam e não existia nada desta ideia moderna do empoderamento das mulheres. Talvez empedramento das mulheres!

Os homens eram os donos dos bens,  atenções, e as mulheres teriam que casar e ter filhos numa lógica da bossa nova retrógrada . Somente isto: casar e cuidar de um fogão e ter por companhia um balde velho verde e vários panos de chãos comprados em feira. E fique de cara   feliz em conseguir um pano chique de chão de  saco de farinha de trigo, pois estes são mais resistentes que os demais.

O mundo era rosa para a outra criança. Nasceu rica, de pais perfeitos e tinha o mundo ao seu dispor, não era serviçal, era Rainha. Os blogueiros seguiam as postagens, pois a vida dela era um flash multicor. O pai dela tinha uma mansão prateada, com várias portas e janelas de vidro, duas piscinhas panorâmicas, empregados de todos os tipos e portes, roupas de todas as marcas e um quarto de princesa.

E a outra cresce e fica doente, raquítica, amarela. O quê fazer da vida, meu Deus. Já nasceu sem graça, e nem sua própria família a estimava. Quanto menos o mundo, este iria lhe enterrar viva, talvez!

A menina do Instagram  casou-se com um homem lindo que  não era de sua estatura social, mas era um casamento de amor e os pais o reconheceram como um presente de Deus. Este novo casal  obteve riquezas e Deus abençoou aquela família que era unida, que vivessem dignamente com valores cristãos, pois apreciavam a vida sem destempero, pois tinham de tudo  e gostavam da vida pelo simples fato desta ser uma passagem breve e chique. E, se era breve, deveria ter muitas postagens, pois eles estavam num trem de luxo, servidos por um arsenal de funcionários e com comidas de primeira classe. Para quê se separar do bom, da riqueza, de um mundo cor de rosas?.

A vida real não é de Instagram.

E, por outro lado,  a mocinha sem graça, não era exigente e pedia a Deus que pelo menos alguém gostasse dela e pudesse formar uma linda família. Ela teve a sorte de achar um moço com bastante graça, mas que a sua família não estimava. Ela era sem graça, mas nada feia e riqueza não é tudo pois o  pai desta menina prosperou, ficou rico, obteve cargos de relance na sociedade e na sua casa tinha mais de três carros, tornou-se possuidor de  várias lojas, mas apesar de toda aquela fortuna não se lembraram de enfeitar o quarto dela. Continuou sendo um quarto de criança, velho e laranja, com cortininhas rasgadas e puídas com bichinhos do  ronca. Ela ficou doente, triste, e estava certa que aquela prisão deveria mudar. Saiu daquele mundo, e foi morar bem longe. Casou-se no cartório, e teve a sorte de ganhar um carro velho de presente que serviu para ser alienado e trocado por  uma casa barata de um conjunto qualquer deste país, que somado com outro dinheiro de suadas economias do novo casal, era preciso um lar para uma recém nascida.

O casal morou longe e para abreviar a conversa os pais e amigos diziam que moravam no fim do mundo. Ela conseguiu um emprego num banco da capital e viveu modestamente, e depois o casal conseguiu um emprego público de classe média. A mocinha do instagram, por outro lado,  casou-se e teve uma festa de mais de mil convidados.  Ganhou muitos presentes, uma casa nova e um carro de última geração.

 De quebra, transformou-se numa arquiteta de sucesso e consegui embelezar e trazer graça às vidas dos ricos da cidade natal.  Teve vários filhos e estes continuaram morando na cidade dos pais. Usufruindo da graça destes, com muita formosura.

No seu instagram os seguidores passaram dos milhões, pois aquela menina feia fez plástica, rinoplastia,  procedimento para que o rosto ficasse formoso,  e somente usava roupas que combinavam com o tipo físico. Era tudo tão artificial e perfeito que o mundo real das pessoas  sem graça devia sentir uma   certa inveja .

A menina sem graça trabalhava duro e teve três filhos. Duas meninas e um menino. O casal prosperou,  mas tinha dificuldades de morarem juntos, pois não conseguiam empregos compatíveis e em algum tempo da vida deles mudaram do fim do mundo para o início do mundo, e um deles foi para um lugar que era o meio do mundo.

Não  faziam muito esforço para que o mundo deles fosse igual ao da família do instagram. Uma das filhas do casal já grandinha e dona do nariz, foi morar fora e por capricho não sentiu vontade de ficar perto dos pais, quando teve oportunidade de retorno. Não retiro o acerto de sua escolha, pois se prefere  ficar longe tem uma coerência, afinal a  tristeza pega e pode ser igual  a câncer.  Os pais dela foram desumanos com ela,  em um certo momento da vida dela, que por sinal era uma criança e quis ser adulta  e penso que  este remorso encha seu coração de dor. Perdoe a mãe sem cor e sem graça, ela estava e está sempre  sem graça e o pai angustiado com a amargura do mundo, pois com ele a vida foi mais cruel e algumas pessoas resolveram apontar o dedo para algo que ele não tinha no rosto.

Talvez ela sinta que seus pais são leprosos invisíveis. E a estória piora, pois com a saída de uma filha a outra adoece e tenta copiar o filling da irmã. Logo inventa que tem que estudar em uma instituição  de renome, pois a escola próxima de sua mãe não presta, logo quando sua mãe estava bem de vida, morando no meio do mundo, e com uma vista de um rio belíssimo.

Esta outra filha foi morar numa casa que fede a  mijo de cachorro e ela se alegra em fazer comida de gente, mas na casa da mãe dela sequer fritava ovo. É uma menina boa, às vezes pede desculpa pela ingratidão, mas está ficando idêntica a outra irmã!.

E a menina sem graça, agora percebe o quanto sua vida é cansativa.  O trabalho que escolheu é de tentar resolver os problemas dos outros, mas a sua vida pessoal não tem solução e isto todo  está lhe cansando muito,  pois não é uma opção aguentar o desamor . Quer ser justa, correta e consertar o mundo. Somente se afunda mais e mais na lama dos dias.

Tenho absoluta certeza de que  são os fatos diários  que reprimem os seres humanos. As filhas da menina sem graça  somente expelem discursos com desculpas vazias, ou porque querem dinheiro.

Um final de semana sozinha num destes meses de covid,  a menina sem graça descobre que nada de sua vida tem graça mesmo e que era melhor morrer, pois não faria diferença no mundo.

_ Mãe depois  te ligo, pois estou com a cabeça cheia!.

_Mãe quero R$ 500,00( quinhentos reais) para pagar o meu cartão.

E  o marido, emburrado, que viaja de férias sem a esposa, põe o telefone no silencioso, pois a voz dela poderia estragar aquele precioso descanso!. E ainda tem algo a dizer que no Instagram dos três não tem postagens da mãe sem graça. Lá eles não tem mãe ou esposa. Aquela coisa de melhores amigos, nem pensar em incluir a menina sem graça.

Tudo é silencioso nesta família de casas separadas, em estados separados.  E ela fica irritada porque foi tão omissa em não mandar todos à merda!

Enquanto isto a família do instagram  é perfeitinha, a família de margarina é embalada num papel de presente e a família sem graça segue firme ,  no papel,  para fins de herança.

A  personagem enjoa de existir,  de querer agradar,  tudo e todos. Chora porque tem duas filhas e não tem nenhuma. Chora porque o filho homem faleceu antes de nascer. Chora porque sabe que,  se ficar em casa sozinha, apenas num único final de semana  e tentar conversar com uma delas no telefone, vai ser uma tentativa impossível. E neste pensamento, pensa em desistir de ter telefone, pois assim se livra de pensar nos spams e nos spams verdadeiros dos parentes, pois ligam e nos deixam no vácuo, como aqueles robôs das empresas de telefonia.

A vida sem máscaras é cruel. Por isto, teve que acontecer uma pandemia de Covid 19.

A morte é mais solidária, pois se sozinha está, melhor sozinha deixar! Para quê casar e ter filhos, para depois ficar sem nada mesmo? Perda de tempo e de beleza.

E a menina do instagram expõe sorrisos numa boca embelezada com um batom rosa,  pois sua casa sempre está alegre e brilhante,  comemorando a vida diária como se este fosse um eterno aniversário em família.

A menina sem graça diz que melhor  seria desaparecer. E pergunta a Deus:

- Por quê  tanta ingratidão?

 Deus tinha lhe dito quando estava dirigindo numa estrada do interior do país,  que iria fazer coisas maravilhosas em sua vida e conseguiu até mesmo ouvir sua voz.

Deus não pode ser mentiroso. Ele gosta da menina sem graça e a do Instagram.

 E antevejo que aquela  menina não aguenta mais estas pessoas, que são próximas e distantes.

 A família é um mal do século.

A família é uma mentira do século e por isso que tanta gente está doida querendo deixar de ter gênero, pois assim não forma família nenhuma e não se estressa com nada. 

Existe no mundo os órfãos de  verdade e os órfãos de mentira, e  os de mentira são os filhos que são rejeitados por pais vivos em um mesmo teto, ou vice-versa.

Digo a todos que precisamos repensar nossas relações. Seja nas famílias ou no trabalho.

 A solidariedade está escassa, moeda invisível que mata os homens devagarzinho com depressão.

E depois perguntam:. Morreu de quê mesmo?

_ De ingratidão!

Por outro momento, acontece uma reviravolta e a menina do instagram perde o pai de Covid 19.

É descoberto  uma falcatrua promovida por este e a Justiça bloqueia os bens da família. A família desestrutura e o perfil do instagram é apagado.

O rumo da estória de uma personagem muda, e o da outra?

A Menina sem graça tem o mundo rejuvenescido porque nem sempre a onda é braba e ela  enriquece na loteria, sai do emprego silenciosamente  e resolve viajar ao mundo num cruzeiro das arábias, sem a presença de ninguém,  momento para pensar em outros ares de vida. Encontrar graças.

As filhas e o marido pensam que ela morreu, talvez chorem, mas irão dividir o montante da herança e nunca mais irão se lembrar de uma mulher sem graça, pois pensam que a vida deles tem graça de sobra.

Ela, que já não é sem graça  resolve participar de uma ONG para ajudar pessoas sem graça e o amor  verdadeiro entra na sua estória.

Era o amor que lhe faltava, o amor do próximo que necessita de carinho.

Esta família perde um ente que não era querido, mas a mulher sem graça sente-se útil e consegue respirar e todos ficam felizes, pois tudo isto é uma estória imaginária e não posso me dar ao luxo de falar de tristeza.

Alguém já pensou em fazer isto na vida?

Luciana Costa Aglantzakis - 25/10/2021

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