Tempos de despertar...

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem” (Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas).

 

 

Nos últimos dias temos nos deparado com muitas situações novas e diversas opiniões acerca do isolamento social e dos impactos negativos que esta situação pode trazer. Esta situação nos leva a alguns questionamentos e dentre eles devemos nos perguntar 1. Porque o isolamento social nos traz tantos medos, inquietações e especulações? E, 2. Porque temos tantas dificuldades de lidar com a possibilidade de estarmos sozinhos, ainda que apenas fisicamente?

Os tempos nos convidam a olhar os impactos positivos que as adversidades podem nos trazer e este pode ser um recurso simples a ser utilizado no dia a dia para trabalhar a ansiedade e o stress provocados pelas mudanças imprevisíveis. Mudar um pouco a estratégia e enfrentar as situações permitindo-se perceber que o novo, ainda que repleto de desafios e dificuldades, coloca-nos à frente da possibilidade de construirmos novos significados e modos de vida para o nosso planeta.

Deparamo-nos com o medo da doença, da perda de liberdade e com o medo da morte. Saímos do controle... Com isso, podemos reconhecer quão grande é a vulnerabilidade humana e que apesar das conquistas pessoais e de outros estereótipos que nos definem, somos também seres iguais e complementares neste cenário. O momento pode nos motivar a aprender olhar para o cuidado, para o afeto e para a solidariedade como formas de significado que nos são essenciais. Começamos a perceber que ser humano é se pautar na proteção e na valorização da vida e que precisamos e podemos investir um pouco mais de tempo nesta experiência tão construtiva quando nos vemos longe da rotina habitual.

É hora de verificarmos nossas prioridades e os significados que estamos construindo em nosso modo de ver e viver a experiência humana e as respostas surgirão da experiência de cada um. Abandonar posturas extremistas, verdades absolutas e deixarmos nos despir um pouco da vaidade e do valor utilitarista das coisas podem ajudar a para perceber a verdadeira experiência que sustenta a nossa essência em nosso modo de “Ser Humano”: as pessoas, nossas relações e afetos.

Parece óbvio que as relações nos capacitam e nos reconhecem potencialmente capazes e humanos. Mas, a verdade é que há algum tempo a nossa ocupação diária se aproxima mais do “Ter” do que do “Ser” e isso nos tem roubado a capacidade de olhar para nós mesmos, para a qualidade dos nossos relacionamentos e para nossas fragilidades e medos, comumente responsabilizando outras pessoas por aquilo que nos provoca frustrações e infelicidade. Olhamos para fora e esquecemo-nos do quanto somos capazes de ser ativos e criativos no empregar de nossas qualidades humanas.

Por essa razão, apesar das dificuldades que emergem neste cenário, devemos também reconhecer a oportunidade que possuímos de cuidar de nós e valorizar mais as pessoas e os relacionamentos que são tão necessários à nossa existência e ao nosso bem estar. Construir dentro das possibilidades e dos recursos que cada um possui, formas de substituir a presença física por toques de afeto e redes de solidariedade. Começar pelo que é simples. Manter o pensamento positivo e estabelecer um foco ou uma meta possível sem mergulhar na ansiedade de projetar-se para coisas distante do presente e daquilo que é real, pois é muito importante entender que agora há muitas circunstâncias fora do nosso controle.

É óbvio que nos importa obter informações e um conhecimento ampliado sobre a Covid-19 como forma de garantir nossa proteção e também da sociedade. Mas é também preciso tomar muito cuidado para não resumir a vida diária apenas à captura de tantos conhecimentos. O excesso de informações e o foco apenas nessa questão pode causar angústia diante da possibilidade do “não poder”, do “não saber” e do “adoecer” dentre outras questões que furtam as experiências positivas do tempo “vivido” por um tempo apenas “pensado” e cheio de planos. É importante ter consciência com intencionalidade para descobrir os anteparos que possuímos individualmente enquanto sujeitos para lidar com os diversos sentimentos e necessidades que estão surgindo. O atual cenário nos convida à reflexão sobre as escolhas que podemos fazer hoje que podem tornar nossos dias melhores. Viver um dia de cada vez e descobrir estratégias para “saber cuidar” de si inicialmente já é um bom começo para auxiliar o coletivo neste momento e para isso não é preciso esperar grandes teorias. A vida acontece no tempo presente.

Buscar um sentido para o que está posto e desenvolver ou ampliar habilidades como o autocuidado, a empatia, a alteridade e a resiliência pode ser um bom gatilho para reconhecer que somos capazes de criar formas de viver bem em meio a esta crise. Porém, é preciso saber que não somos capazes de tudo sozinhos, que não há felicidade plena e que não somos os salvadores da humanidade detentores de superpoderes. Saber pedir e receber ajuda se for necessário também aumentará nossa capacidade de enfrentar bem a situação. Experimentar o sentimento de humildade pode trazer uma experiência mais leve.

Viver o instante presente com esperança e resiliência e tentar sair da zona de conforto e/ou stresse para o estágio de desenvolvimento pessoal onde cada um deve respeitar o seu processo particular. Por isso, é importante saber identificar as ameaças cotidianas à saúde emocional e buscar mapear e ampliar os recursos que estão disponíveis neste momento que irão favorecer uma experiência mais construtiva, ainda que possa ser também dolorosa. Esses recursos não são soluções mágicas e irão se apresentar conforme a experiência vivida e a disponibilidade de cada um para descobrir. Conectar-se consigo mesmo e ampliar o diálogo com os outros na medida do que for possível e com os recursos que estiverem disponíveis irão ajudar a encarar o momento também como uma oportunidade de experimentar o cuidado e o amor em diferentes proporções e isso certamente contribuirá para construirmos soluções positivas para este momento de crise.

Sigamos com coragem!

Dayelly Borges do Nascimento, psicóloga analista em Gestão Especializada da Equipe Multidisciplinar de Palmas - 13/05/2020

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