O túmulo do desejo e o DJ

Neste momento de retiro, isolamento, o Facebook tem sido um recurso de consolo, distração de espíritos atormentados.

Sinto muita compaixão por meus queridos irmãos que perderam os estimáveis  parentes, mas é preciso seguir em frente com o coração ferido e a alma desalentada.

Não me pergunte quando esta Epidemia irá cessar?. Não sei.  Deus que o diga e é melhor deixar ele no canto dele, quietinho, cheio de luz, vibrando regularmente; pois somente os sem juízo têm coragem de irritá-lo com perguntas bestas. Sabe-se lá se possa vir a se irritar e enviar subitamente um anjo gigantão para  tomar satisfação!.

Melhor falar com ele, somente de boa, pedindo luz, sabedoria, fazendo orações do bem.

Confesso que não sou  muito fã da morte, e para ser bem franca tenho aversão do que não conheço, pois somente ela é capaz de tirar o meu predicado de “mortal” e estou no momento feliz com minha humilde condição, pois sou uma mortal entre bilhões .

Certa noite, igualzinha às demais, estrelas sem-fim no céu  e perdida no quarto,  clique vai, clique vem, um moço fala uma estória interessantíssima de arrepiar os cabelos no facebook, um vídeo comum.

A física, talvez a meta física,  arrepie os meus cabelos, mas aquele  ser   entrou no plano do além, com um sentimento poético, utilizando-se de invenções imaculadas que se situam lá longe no Cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro- RJ.

Ele, que não tinha nome, não era lobisomem, era homem e  resolveu visitar regularmente o túmulo de Clara Nunes, com intuição de receber benção desta, como uma fada madrinha do além-mundo. Queria dela apoio e luz para conseguir um bico, ser DJ.

E este moço era determinado, um foco esquisito que somente está na moda porque este vírus feio, resolveu  nos visitar e mais de duzentos mil pessoas, somente no Brasil,  ultimamente tem ido ao cemitério sem volta.

O  mundo está de bunda para baixo, inseguro!.

Este senhor, vou nomeá-lo, será chamado de Mike, nome bonito e musical, combina harmonicamente  com a função de DJ.

Reflito: Mike Nunes, afilhado de Clara Nunes!

Clara, a madrinha do além-mundo estava enterrada num ambiente descuidado, lúgubre, sujo.

Mike, pobre cidadão, resolveu adorná-lo com rosas, numa ação silenciosa, fraternal, típica de espíritos sensíveis que ficam amigos sem querer nada em troca.

 Esta rotina foi surpreendida em certa tarde, quando o moço achou cartas de agradecimento no mencionado túmulo de Clara Nunes. Estava ao lado do túmulo duas senhorinhas simpáticas, cheirosas e engraçadas, com  mais de 80( oitenta) anos, que inexplicavelmente quiseram saber o que ele fazia por ali e disse para ele que Clara fazia o mesmo que o Túmulo do desejo, atendia pedidos das almas desesperadas, desenganadas, que já não acreditam mais nos humanos de carne e osso.

Uma delas se chamava Diva e falou para o moço, que além do túmulo de Clara Nunes,  existia naquele cemitério o famoso “Túmulo dos desejos”, infalível, tiro na queda.

- Vamos lá, meu filho, eu vou te mostrar!.

Ele, o mocinho aceitou o convite porque o enfoque dado naquele enredo esquisito era  surreal e não tinha nada a perder mesmo, somente alguns passos de um túmulo para outro.

_ Chegamos, disse Diva.

Mike olhou e não achou nem um pouco bonito, tão sem graça quanto o outro jazigo, mas ficou caladinho, afinal aquele lugar não era sua casa e nem queria morar ali.

_ Agora faça assim, dê três murrinhos no túmulo, faça seu pedido com fé e ele irá te atender. Ele vai se mexer, dizia Dona Diva.

E, Mike fez e nada. Depois, ela disse: Com fé!

E não é que veio um estrondo de dentro do túmulo, parecia ter gente viva lá dentro. Mike deu um pulo para trás e resolveu escacaviar os diâmetros daquele túmulo, pois deveria ter uma porta e alguém lá dentro. Mas não tinha nada, era um daqueles jazigos comuns, sem anjo adornado, nada de mármore. Uma estrutura comum de  cimento básico, um nome apagado de quem já morreu há muito tempo e nada demais.

Destaco aos meus queridos amigos, que Mike não falou no vídeo quem era o falecido e dono daquele túmulo. E nem poderia ser o gênio da lâmpada, pois ali não havia clima para abracadraba e etc e tal.

As duas senhorinhas, riam e apreciavam o interesse sincero do jovem rapaz. E disseram ao jovem: - Tenha fé, vai acontecer o seu pedido em menos de 01( hum) mês. Eu, Diva,  pedi ao túmulo do desejo que intermediasse para que eu não perdesse a concessão de um ponto na  Feira de São Cristovão   e não perdi meu ganha pão. É tiro e queda, meu filho, o  túmulo é muito famoso, meu filho!

Nesse ínterim, elas se iam porque já era tarde  e Mike desconversou. Quis esticar a prosa e fez um convite para um café. E deste convite elas disseram que aceitavam, mas soltaram os passos no rumo das ruas que serpenteavam o cemitério e Mike perdeu-as de vista.

Estava perdido. Curioso e perdido,  tem coisa pior nessa vida! Uma vida sem exploração e aventuras precisa de um caminho, ficar perdido sem caminhos é realmente castigo e  aquilo lhe incomodava muito  e sentiu uma tristeza infinita na alma de DJ liso que precisava urgentemente de dinheiro com ajuda de uma cantora imortal, de duas senhoras esquisitas e um túmulo cinzento.

Resolveu perguntar ao vigia se tinha visto as duas senhoras baixinhas, senhorinhas, que estavam lá no meio do cemitério e se por acaso sabia de uma estória esquisita de algum túmulo famoso do desejo. Queria saber quem era o ilustre ou a ilustre alma enterrada ali?

O moço parou, riu com os olhos, falou: _ Ah, moço, você é mais um que se perdeu das duas senhoras?.

- Sim, por que?

E este disse que todos que  são convidados para conhecer o túmulo dos desejos, depois da prosa, já não as veem. Costumam desaparecer!.

Dúvidas!. Será assombração?

Curiosidade vai, curiosidade vem e  Mike resolveu visitar a Feira de São Cristovão e deu uma de detetive para achar  a bendita banca de Dona Diva . Trabalho perdido, não havia  nenhuma Diva por lá. Teve que se contentar com um pastel e caldo-de-cana.

 São Mistérios da meia-noite  de quem não tem o quê fazer?. E aquele ditado popular que não sai da minha cabeça: “ Quem procura acha! ”. Cuidado! Mas pelo menos o rapaz conseguiu em um mês o trabalho de DJ.

 

Juíza de Direito Luciana Aglantzakis; Membro da Academia Palmense de Letras (APL) - 09/04/2021

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