SACRIFICAR OS NOSSOS FILHOS?

A prática do sacrifício humano é tão antiga quanto a própria humanidade. Diversas culturas, em várias regiões do globo, até hoje, cultuam certos deuses oferecendo crianças para serem queimadas no fogo como forma de aplacar a ira dessas divindades ou de receber algum tipo de bênção. Diversos profetas bíblicos relatam que a própria nação de Israel adotou tais práticas ritualísticas, e “o povo eleito” sofreu a escravidão e o domínio de nações estrangeiras. O domínio babilônico; assírio e persa sobre a nação de Israel foi previsto e anunciado pelos profetas, que confrontavam os reis e todos os que adotavam tais práticas, entre diversas outras formas de culto condenáveis pela lei testamentária mosaica.

 

Mas, e eu com isso? E hoje? E no Brasil?

 

Bem, por aqui, gostamos muito de sangue e vibramos com a violência.

Paz, justiça e amor não tem graça e não desperta o interesse de ninguém. Somos viciados em pornografia; traição; guerra e pancadaria.

 

Dependendo do significado real do que se tome como sendo um sacrifício, não seria exagero dizer que, apesar de não os queimar, nós sacrificamos os nossos filhos diariamente.

 

Como policiais, aprendemos a gostar de prender o bandido e a sociedade cobra isso de nós, mas não denuncia o crime que presencia, tampouco se importa em tomar medidas para evitar o crime.

Como médicos, aprendemos que o importante é salvar o paciente na sala de emergência e a sociedade nos exige o remédio certo, mas não quer deixar de se entupir de açúcar; carboidrato e drogas lícitas ou de conduzir seus veículos como cegos ensandecidos e enfurecidos.

Como gestores, gastamos o que não temos para resolver problemas que não existem e a sociedade acha que temos que gastar mais em benefícios, bolsas e auxílios, mesmo que dilapidemos os cofres públicos com os nossos jantares; nossas regalias; nossa propaganda e nossa ostentação.

 

E como sociedade?

 

Bem, como sociedade nos preocupamos em estar bem bonitos; gastamos sempre de três a dez salários mensais futuros no dia de hoje; contratamos babás e enchemos nossos filhos de atividades para não ter que cuidar deles; não sabemos mais viver sem remédios para dormir, para acordar, para transar, para sorrir e para manter o nosso humor; exigimos a melhor escola, o melhor hospital e a melhor polícia e aceitamos qualquer migalha em troca do nosso voto; somos levados a acreditar que pensamos e escolhemos por nós mesmos, consumindo cada vez mais lixo em todos os sentidos e por todos os sentidos (nos filmes, nas séries, na comida, na roupa, na notícia, no culto e em praticamente tudo o que gastamos o nosso dinheiro, nossa saúde e nosso tempo); e fingimos viver numa democracia ultra evoluída, discutindo sobre política com os conceitos e pré-conceitos que “printamos” nas famigeradas redes sociais, desfazendo amizades e até renegando vínculos de sangue em prol da nossa certeza e do nosso ideal de bem comum.

 

Que nada! Isso é balela! Muito exagero!

 

Somos o povo mais lindo do mundo; somos um país diferente por causa do nosso carnaval, do Rio de Janeiro, da Bahia e de todas as nossas belezas e riquezas naturais, que os povos “evoluídos” exploram e pagam bem baratinho em troca das nossas mulheres, nossa fauna, nossa flora e nossa consciência aos níveis mais baixos de dignidade, que entregamos passiva e alegremente.

Temos políticos cujas campanhas são pagas com dinheiro de origem duvidosa, que foi negociado e gerenciado por pessoas que estão dentro dos nossos presídios e contam com a lealdade e a providência de leis complacentes e decisões judiciais, que, polidamente, poderiam ser classificadas como “inexplicavelmente benevolentes”.

 

Sacrificamos nossos filhos?

 

Não em fogueiras diante de estátuas de bronze. Não em rituais religiosos. Não! Isso seria demais!

 

Mas aceitamos deixá-los com pessoas que não sabemos absolutamente nada sobre a vida delas, em escolas, creches, berçários ou qualquer coisa que o valha (natação; inglês; informática; mecatrônica...).

Preferimos deixar o Youtube; a Netflix; o TikTok e qualquer outra porcaria semelhante ensinar o que elas encontrarem pela frente para que nos seja possível nos informar; limpar a casa; malhar ou somente “ter um pouco de sossego”.

 

Comer todos juntos no mesmo horário ao redor da mesa; conversar sem nenhum “objetivo” e somente compartilhar como foi o dia; não pensar no “sucesso” e em “garantir o futuro” para somente brincar e sorrir até doer a barriga; passear sem destino e apenas ficar junto no entardecer ou qualquer coisa que crie o menor vínculo afetivo não tem espaço na nossa agenda, cada vez mais apertada e acelerada.

Temos que correr para garantir que os nossos filhos tenham assegurado o direito de não conviver conosco e tomar todos os cuidados para que lhes seja ensinado corretamente a tolerar agressão; zombaria; desfuncionalidade; desproporcionalidade; desregramento e desrespeito.

Temos que nos assegurar de que o governo e o estado estão cuidando de tudo por nós para que possamos dormir em paz, com a sensação do dever cumprido e a nossa barriga cheia.

 

Ah, claro, temos que ter a certeza de que estamos cumprindo bem o nosso papel de deixar as nossas crianças sem absolutamente nenhuma referência do que seja bem ou mal; do que seja certo e errado e, agora, até do que é que elas são. Talvez sejam homens, talvez não. Talvez sejam pretos, talvez não. Talvez sejam fiéis, talvez não. Talvez sejam capazes de se tornarem pessoas, talvez não...

 

Não! Com certeza, por aqui não há sacrifícios humanos!

 

Há obrigação de respeitar, sem a compreensão do que seja limite e paira soberana a certeza de que vai dar tudo certo, afinal, “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8:31).

Rodrigo Lacerda - 21/09/2021

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