AS FLORES VENCERAM

AS FLORES VENCERAM

 

Luciana Costa Aglantzakis

 

11 maio de 2022

 

Quem diria que um balde já teria que largar a água fria para que nele ocupasse o amor.

Um dia de fitas, um mundo sobrevivente, e estamos que estamos indo e  indo sempre em frente.

Bem que te quero

Bem que te quero

Eu espero.

Eu espero.

Eu não morro.

Eu não morro.

Peço socorro

Peço socorro

Júlio pede socorro ao seu  funcionário contínuo,que trabalhava  numa firma de advocacia de Recife-PE.

E o moço não descansou enquanto não conseguisse um encontro.

Juliana virou sua cabeça.

Julio entortou o juízo.

Uma rotina nova entrou no ar, na vida de Julio.

Este encomendava sempre as 14 um par de flores, e o contínuo ficava na frente da casa da moça de plantão, à espera do sim, de um primeiro encontro. Isso acontece em Recife Pernambuco,  terra das artes, do lirismo, do sentimento coletivo.

Tempo poético.

Tempo poético.

Canto de cisnes, com cara de gente.

O rapaz não tinha coragem de receber um NÃO

Um não

Não Sim,

Antemão, antes não, depois, sim

Depois sim

Depois sim

Seu dia perdeu as horas e o único descanso era receber um sim, de bandeja e embalado de presente.

O primeiro encontro foi um

Desastre

Desastre

Mas ela, Juliana, estava temerosa. O primeiro encontro foi num local nada doce, e o  moço não estava nas melhores condições, embriagado e de estilo infantil, adolescente, imbecilizado.

O local era comum

Vaquejada, local de vaca e de boi,

E de muita gente embriagada.

Esta estória de romance, palavra interessante ,começa num forró bodó, em que dois adolescentes se encontram. O moço mais para lá do que para cá cisma com a moça de cabelos negros, e esta foge dele, afinal ninguém gosta de homem bêbado.

E naquele tempo, por volta da década de 90, numa cidade nordestina, ainda não existia instagram, internet, e o vínculo para o encontro era por intermédio dos amigos dos amigos, e por sorte um telefone de bandeja.

O contínuo, todo dia

Dia sem noite, ainda dia

Levava flores, flores, flores, flores mais e mais flores.

Abundava as flores, e a floricultura ficava feliz com as encomendas.

O contínuo batia o ponto na casa de Juliana. Levava flores e mais flores e estas meninas coloridas s ocupavam os baldes, muitos e muitos baldes.

Já não havia no recinto balde para lavar as roupas, da casa de Juliana e de sua amiga, companheira de recinto.

A amiga torcia por Júlio, e dizia a Juliana que os baldes eram escassos na casa.

Juliana não teve opção

Resolveu que as flores tinham que viver a efêmera beleza

Nos baldes, bacias, xícaras e fomas redondas da casa

E antes que ela enlouquecesse e já não existisse outros baldes, esta

Disse ao contínuo o SIM TÃO ESPERADO DAS SEMANAS.

SIM

SIM SIM E PORQUE O SIM

Era melhor que o NÃO

E  ela  foi ao encontro

De um belíssimo jantar.

E depois mais de vinte anos de casamento.

As flores venceram

O amor desbaldou os baldes da casa de Juliana

O mundo sorriu e esta estória é REAL.

 

Juíza de Direito Luciana Aglantzakis; Membro da Academia Palmense de Letras (APL) - 08/06/2022

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