Senhor, Livrai-nos das ondas!

Estou no município baiano denominado Mata de São João, e sentindo-me uma retirante na praia do Forte, no Hotel Ibero Star Bahia em que  a tábua da maré indica que está na maré morta, que significa conforme o Google “ maré de pequena amplitude que se segue ao dia da quarto crescente ou quarto minguante. ... Maré viva - Ocorre durante a Lua Nova e Lua Cheia, após o período do estabelecimento do porto, e caracteriza-se por uma alta preia-mar de uma baixa baixa-mar”.

O mar desta praia é revolto, mar aberto e vejo muitos transatlânticos  da sacada do quarto, com a desvantagem que não é uma  praia de bom banho, mas sim posso apreciar a brabeza e beleza da natureza selvagem.

Hoje enveredei numa  aventura para conhecer este mar feroz que  não é amor, mas dá um caldo. Um mar que dá caldos e caldos, e tive dificuldades de banhar-me na água doce depois de  que a pele do corpo ficou impregnada de tanta areia molhada retida no biquíni.

Nem que eu  arrastasse corretamente  na areia molhada, e longe da quebrada da onda esta tentativa vã de atravessar ondas revoltas não serviria para que eu  conseguisse sair ilesa daquela praia.

Sai quase ilesa, pois os ouvidos ficaram cheios de água e alguns pulinhos avessos resolveram o problema.

 Contudo, notícia pior,  viria após o almoço.

Uma colega liga-me e conta que houve várias mortes na cidade de Pedro Afonso e  queria saber do meu paradeiro, como se quisesse abreviar um noticiário ruim...

Disserta que o noticiário do final de semana indica que há uma ligeira possibilidade de um tsunami ou talvez várias ondas gigantes destruírem Salvador e o litoral do Rio Grande do Norte e a Paraíba, pois o vulcão La Palmas localizado nas ilhas Canárias, da Espanha, entrou em erupção.

Esta notícia é assustadora e sinto um turbilhão de emoções desconhecidas, pois a humanidade não pode controlar os desígnios de Deus e  por ter fé acredito  que a possibilidade é remota, e se algo de ruim acontecer fugirá do controle de todos, pois o país não é acostumado a disparar sirenes para possíveis tsunamis.

No jornal consta que o alerta é amarelo, que significa atenção para  possível alerta de risco, indicado pelas autoridades.

Procuro notícias de tsunamis ocorridos na Indonésia e percebo que centenas de pessoas perderam suas vidas em segundos.

O mar lavou cidades, e os homens desprevenidos foram engolidos por ondas gigantes sedentas em desbravar terrenos de pedra.

Com esta notícia sinto uma tristeza como se a humanidade precisasse urgentemente encontrar o sentido certo do existir.

A Rebeldia de Deus, com um vulcão dispara meu coração.

Tal sentimento  revela que não há sentido em trabalhar tantas horas diárias e não poder aprender novos idiomas, encontrar o sentido da linguística na busca de uma língua mãe e raiz que faça- me compreender  nem que seja um pouquinho o que falam meus outros irmãos que vivem acima do hemisfério sul . 

Será que falam diferente dos brasileiros, penso sozinha. Ou talvez não tenha relevância aprender inglês, francês, albanês quando nem mesmo entendo o português dos brasileiros, pois somente tem voz os poderosos e não terei tempo de ser  vigorosa,  pois a força somente pertence a Deus.

A vida da maioria das pessoas é tão sem graça e de uma hora para outra o facebook, instagram e outras mídias sociais nos robotizam cada vez mais, e padrões de consumo fazem surgir uma falsa ilusão de empoderamento feminino e masculino. Basta usar um roupinha de moda, uma pose estratégica e ter um turbilhão de seguidores para escrever comentários que nada acrescentem em sua vida.

Hoje uma atriz brasileira, que por questão de ética não revelo a identidade, postou no instagram glúteos divinos adornados por   uma calcinha  que transcrevia  palavras em inglês. Ela realmente era linda, mas achei vulgar a postagem  e resolvi interpretar criticamente  os comentários dispostos naquela postagem.

Os seguidores acharam lindo o post e aplaudiram esta deusa, quando tenho absoluta certeza que interpretando as entrelinhas deste post,  talvez quisessem tirar uma casquinha ou a calcinha da atriz. Não sei quem foi mais infantil neste post, a atriz, a calcinha em inglês para brasileiros ou os seguidores de calcinhas, ou esta escritora que perde tempo interpretando esta frivolidade.

Eu precisava de um tempo e por isto esta postagem surge no instagram. Já tinha lido um livro na piscina e minha visão estava cansada do papel amarelo.

Resolvi mergulhar na piscina e tomar algum drinque para passar o tempo.

Após alguns mergulhos, descubro que as pessoas deste hotel não são de verdade e elas ainda não descobriram este aspecto imponderável de ser e não ser.

São turistas e escuto na piscina estórias de que estiveram em Paris e estradas na Alemanha.  Pessoas que assumiram vários personagens quando habitam cidades e países estrangeiros de suas respectivas pátrias mães.

Gosto de ouvir conversas paralelas e ouço algumas dizerem  que gostam de uísque, e que algum governo do Estado não paga o precatório de sua empresa. Outra reclama de uma filha que tem conflitos internos de sexualidade.

Quando acabar o pacote all incluse elas voltam ao local que eram gente. Irão ligar o botão e seguir em frente, felizes,  pois o hotel é um local para recuperar energia. Todos recuperam energia, nem que seja por osmose dormindo na cama exclusiva e com os daikiris, licores de cacau, frozen de morango, coquetéis azuis  ou o acarajé e a batata frita do final da tarde.

Caso não queira passar dos limites e a balança subir uns pontinhos tem uma solução intermediária que é caminhar 04 ( quatro) quilômetros ou agendar uma academia de ginástica, para cada dia vivido neste all incluse.

Vejo muitas crianças e elas são pacientes com a monotonia. Gostam de comer, dormir e rir para estranhos.  Elas Reinam no hotel com seus carrinhos e gritinhos finos, um paraíso de birras. Os bebês são lindos e todos sabem curtir a paciência dos pais, que com certeza depois devem tirar férias das férias.

No período da noite tem um show no bar do hotel e também tem bingos, sendo que os vencedores ganham medalhas de madeira.

Estou de férias e a eternidade surge como um tema que me instiga.  Isso porque tenho medo de onda gigante e preciso acreditar que há algo além desta imaginária onda. Confesso que  gostaria de saber mais da vida, e que mesmo sendo curiosa ainda nãosei quase nada de importante nesta existência.

A vida é calada, mouca, surda e muda. Talvez a vida seja uma entidade velha que dá chute em você para  que siga ano adiante até quando ela cansa e por você não mais mudar de lugar devido aos chutes,  a monotonia lhe mata, o coração para e você  explode.  

Senhor tenha piedade, livra-nos  de ondas.

E volto em paz para Palmas. Sem maremoto, sem nada temeroso o que assombre o meu espírito.

Luciana Aglantzakis - 25/09/2021

COMENTÁRIOS

 Nome:
 E-mail:
 Texto:
Comentários (0)
  • Nenhum comentário publicado.