Você acabou com minha vida

O amanhã não nos pertence, mas no meio do caminho há uma vida pertencente a você e com milhares de possibilidades de se viver.

Em momentos de cotidiano idêntico, vivemos no automático e as férias ou folgas servem para desfrutar as especialidades que o mundo nos oferece e não damos a noção exata.

O segredo é de observar o que não está na sua casa, trabalho, e nos amigos, pois esta vivência é trivial e com este detalhe surge tanta concorrência entre as pessoas que lotam hotéis, pousadas e destinos paradisíacos na iminência de encontrar a felicidade, quando na maioria das vezes a felicidade é sempre sutil e simples.

E onde está a felicidade?

_ Na curiosidade, disse-me um peixinho cinza e um caranguejo minúsculo quando eu invado o habitat dos dois numa praia azul da Bahia.

Esta escursão permite-me viajar  na ideia de que as crianças são felizes, pois tudo é novo e a curiosidade invade todos os minutos e horas infantis. Por outro lado, os adultos  não compreendem esta premissa e  poucos que são felizes o são somente por serem eternas crianças.

Esta charada surge num dia azul claro, sol reluzente e um desespero para curtir um mar paradisíaco da praia de Morro de São Paulo, no Estado da Bahia.

Eu estava parada de lado de corais e tinha tomado um coquetel de maracujá.

Os turistas estavam em outra disposição das piscinas de Murerê, na Ilha de Tinharé, em Morro de São Paulo.

Os peixes tigrados estavam famintos e adoraram dividir as sementes de maracujá, relíquias esquecidas com gelo.

 Ninguém presenciava esta cena, apenas eu e eles, os peixes.

Joguei gelo e sementes de maracujá no mar e vivenciei um mar exclusivo de peixes... enlouquecidos, sendo unicamente peixes!

 Depois disso, resolvi ficar estática e um peixe cinza e grande gostou de circundar os meus pés, dedos humanos que serviam como mote turístico e certifico que senti uma felicidade extrema, pois a curiosidade vivia ali na condição de diamante puro e pronto para ser lapidado.

Ele circulava, circulava e senti medo de que o pé turístico transformasse em propensa comida de peixe curioso.

Assustei com este pensamento intruso e deixei de ser feliz, pois curiosidade somente é felicidade se não é temperada pelo horror e medo.

Não é a toa que o filho “ O polvo” ganhou um Oscar, pois conseguiu demonstrar a ideia de felicidade e curiosidade.

Entretanto, este sentimento deve ser pueril, angélico, e não destoar com a natureza do curioso e do “curiado”, palavra que invento acidentalmente, pois o” curiado pode ser um peixe cinza, o caranguejo bebê, ou talvez uma patachoca bebê, espécie feminina do goiamum.

O caranguejo bebê, o da minha história tinha dente e  de essência arisca não gostou do fato de invadir sua praia.

As patinhas eram similares a um gravetinho que abria docemente o seu corpo, espécie de mecanismo  minúsculo que encaixava-se harmonicamente com a areia fofa. Uma formosura com dois olhinhos de feijão que não conseguiria nem fazer cócegas, mas estava ali curioso e querendo me morder. Ri, e ri, siri que não late e nem morde, novamente ri sozinha quando tomava banho no mar.

Agora penso ser necessário dissertar sobre a curiosidade sem felicidade e que sempre combina com o azedume dos outros.

 A tecnologia está literalmente interligada com este detalhe e observo que a novidade que vem sem pedir licença estressa e deixa muitas pessoas com sensação de morte.

Subindo uma das muitas ladeiras da praia de Morro de São Paulo resolvi parar no café da ladeira e tomar uma coca zero.

De repente tornei-me  testemunha de uma cena  engraçada que despertou minha  curiosidade.

Uma senhora de meia idade, magra, parda e vestida com entrada de praia mostrou para a vendedora do café um papel: Não tem áudio, e ao mesmo instante levantou o telefone celular que portava. Além disto, tinha na outra mão um papel que parecia um boletim de ocorrência policial.

Estava muito nervosa e alterada, e logo pensei que poderia ter sido assaltada e que poderia ser analfabeta,  pois não lhe serviria um celular sem áudio e precisava muito da ajuda da vendedora de café do alto de uma ladeira, para ajuda essencial na solução dos possíveis problemas, com um suposto delito.

Eu estava com fome, e pensei que não seria nada educada curiar a vida alheia, e sentei-me educadamente em uma mesa do café da ladeira, e comprei  café,  coca zero e  uma empada de palmito, mas a outra vendedora ria e olhou para mim fazendo sinal que a senhorinha era doida, deixa para que aquele café deixasse de ser diferente dos outros cafés da minha vida.

Larguei a empada na mesa,  entrei no café, pois uma boa história também mata a fome, sede, e enche o peito de alegria.

No outro lado da rua verifico que  a outra vendedora levou uma cadeira e colocou a senhora na frente de um batente de uma loja que estava fechada. A vendedora em seguida entregou um célula para a senhora que   começou a falar, falar, e perguntava onde estava a Juíza?

Ela praticamente gritava e os sons eram zunidos inaudíveis, e estranhei a tamanha audácia de querer saber numa ladeira esquisita, sentada num banco de uma calçada de uma loja abandonada, onde estava a juíza??.

No interior da cafeteria a outra vendedora dizia que  Dona Maria estava nervosa e acusava enfaticamente a amiga, com a promessa de que esta iria acabar a vida dela.

A mocinha que ajudava a senhora foi até minha mesa e contou o enredo todo, rapidinho e resumidamente,  num cochicho leve, que era um audiência virtual de um processo, pois Dona Maria poderia ouvir e ficar irritada.- e ela, parecia temer a senhora, pois a fama de sua loucura assemelhava ser um fato verdadeiro.

Pensei que seria um processo de interdição, e a Dona Maria teria que convencer um juiz de que ela não era louca, ou que era pouquinho  louca.

Depois de tanta confusão e que tive acesso à verdade, quando a vendedora do café contou a missa toda.

_  Dona Maria há vários dias vem perturbando meu juízo com este Link, pois precisa entrar numa audiência on line e resolver o processo do celular quebrado, que propôs contra a Operadora X.  Exigiu que eu entrasse no link na noite anterior às 3 horas da manhã e minha vida virou um inferno depois que me predispus a ajudar, pois o celular dela está quebrado e sem áudio, alem de ser enfática que esta causa é importante.  Fez eu gastar com compra de R$ 30,00( trinta reais) de crédito e me denomina de incompetente, pois acha que vou acabar com a vida dela!!

A cena não era engraçada. Dona Maria queria que a audiência ocorresse na noite anterior, ás 3 horas da manhã e a mocinha teve dificuldades de explicar que aquele link somente abria na hora e dia certos. Um drama surreal, aquele, pois segundo Dona Maria, a mocinha não sabia de nada e se o link não abrisse seria o fim da vida de Dona Maria.

E Dona Maria estava falante no meio da rua, engraçada, portando o  celular emprestado da vendedora do café, e teve que aceitar a  possibilidade ínfima de confiar num batente de uma loja abandonada para convencer um juiz da Bahia de lhe indenizar um conflito de consumo.

 Sem estudo e de poucas posses a senhora  ficou colada na mocinha do café, que além de atender os clientes curiosos, ia e vinha auxiliando Dona Maria, que gritava e demonstrava situações inusitadas, cujos curiosos daquela ladeira, jamais iriam imagina que o caso se tratava de  algo simples e trivial de um litígio de consumo envolvendo um telefone celular.

Eu tento tirar folgas, mas a curiosidade inata da magistratura não me abandona e uma cena desta natureza, engraçada, revela-me que o mundo é uma curiosidade ambulante, não precisa viajar, basta viver.

Luciana Aglantzakis - 24/09/2021

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