Zinhõ, o trabalhador rural na Região das Onças

Zinhõ chegou calado. Usava uma vestimenta simples, além de boné e máscara. Trouxe para o ato processual dois conhecidos, colegas de braço na lida diária de arar terras na região de Chácaras da Onça em Itacajá-TO.

O palavreado ali tinha um nome doce: “ rocinhas de toco”, caibos ou espantalhos verdes no tirintar de areias vermelhas, branca e cinza do cerrado tocantinense.

Imagino que ele é um homem que cria tocos e necessita de testemunho, pois estas madeiras estavam perdidas no mato, mas era prova importante pois seria fundamento para que lhe fosse deferida a  tão sonhada aposentadoria rural.

 A vida dele deveria ser opaca, sem imaginação, sofrida, acolhida por fogão de lenha e cantos noturnos de pássaros sobranceiros, acostumados a assombrar o casal,   viventes solitários de uma pequena casa, em território rural.

Desta feita, poderia ser uma vida sem imaginação, rio de águas tristes que somente existe para quem se encoraja no viver próximo da natureza e retirar dela sustento e fluido vital.

Sinto-me intrusa naquela atmosfera cândida e fugaz.

Zinhõ vive ali por mais de 20( vinte) anos e necessita de  up grade do Estado.

Senta-se macio num ambiente virtual, estranho e branco, aparelhado por computadores e câmeras, e alguns quadradinhos, quadros vivos de pessoas necessárias como o servidor do Fórum , o advogado de Zinhõ, 02( duas) testemunhas e esta signatária, na condição de  juíza e para decidir por sua vida e o Direito de receber do Estado uma aposentadoria que lhe garanta um salário mínimo mensal.

 A distância e a internet, fatores que nunca conheceu seriam responsáveis por sua vida e,  teria que compreender todos aqueles sistemas em tempo diminuto.

Tudo ali parecer ser um script comum e não consigo captar nada novo e interessante, pois os processos de aposentadoria rural aparentam sempre a solidão e o trabalho braçal, cujo maior testemunho são os calos da mão do(a) autor(a) do processo.

Conto um segredo. Queria saber mais, viver mais e sentir mais!. Esqueceram de incluir nos autos os testemunhos das plantas,  matas e dos bem-te-vis. Ficou batido a verdade dos dias tristes que a fome invade o estômago que tudo come, até cobra se for necessário. Zinhõ é um ser servente da terra e distribui a doce senhora terra,  suor,  dor e azedumes da especial condição de ser “ humano”.

Descrição do personagem: Zinhõ, morador da região da Onça, homem branco, calmo, enrugado, propensa vítima de onças e não foi explicado a origem histórica deste nome, mas que herdou um pequeno pedaço de menos de um alqueire e ali tem que tirar leite de onças para sobreviver.

Canso de ser eu e gostaria de viajar nos corredores e sabores da terra geral das onças em socorro de possível mundo paralelo. Captar estórias de personagens daquele processo e de outros que seguem o meu destino.

O mundo não é feminino, não gosta de florear, áspero e sucinto carrega  até o que desconhecemos: a vida é um segundo e estamos na eternidade. Feliz é aquele que sabe conviver com a angústia da falta de razão de viver  no desconhecido.

As audiências judiciais convivem com a brevidade do homem e a vida de Zinhõ segue no curso de um rio invisível:  Ele acordou, roçou, sobreviveu e se foi””! _ Vejo isto claramente, apesar de que a morte dele ainda não é fato relevante do processo. Ele está vivo, e irá se aposentar, foi criado sem etiquetas em Pleno Itacajá. O Estado lhe oferece um dinheiro curto para abreviar o curso suspiro de uma pequena eternidade aqui na terra e por misericórdia divina terá um tempo finito para sorrir sem demonstrar os calos nas mãos.

_Escute Zinhõ novamente os gorjeios dos pássaros, os sibilos dos ventos e não tenha pressa de acordar na baixa madrugada para plantar mandioca, colher feijão,ou até mesmo de torrar o café, pois penso que você deve ter algumas árvores de café no quintal.

_Existe o chamamento da natureza naquele local e você precisa ouvir com calma o sentido de viver ali, pois em breve a natureza lhe convidará para dançar nova música e você mudará de local.

A compreensão da vida é difícil, mas não impossível. Compreende-se devagar e sempre com sombras e lampejos contidos em entrelinhas de momentos mágicos da existência finita.

A verdade está com os que se foram, pois fizeram da morte morada infinita.

Luciana Aglantzakis - 30/07/2021

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