O massacre de Suzano

Eudes Quintino* - 18/03/2019

Causou profundo pesar ao país, não acostumado com dantescas cenas de violência envolvendo crianças, as trágicas mortes de alguns adolescentes estudantes e funcionários da Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, região metropolitana de São Paulo, quando, repentinamente, durante o intervalo entre as aulas, no interior da escola, foram acuados por dois atiradores armados com um revólver calibre 38, com o qual foram efetuados vários disparos, além de uma besta e artefatos explosivos. O resultado contabilizado até o presente é de cinco alunos, duas funcionárias da escola, um comerciante mortos, além do suicídio da dupla.  

Não se pretende aqui discutir a respeito da política de desarmamento da população porque, pelo material de ataque utilizado, percebe-se que não se trata de armas adquiridas regularmente e sim das clandestinas que circulam pelo país.

Nem também lamentar a incúria e a dissidia da escola pública em oferecer proteção e segurança aos estudantes, pelo menos em restringir a entrada de pessoas não autorizadas no estabelecimento de ensino.

A questão a ser abordada - sem qualquer conotação científica que demandaria incursões nas áreas da sociologia e psicologia criminal em busca de fenômenos relacionados com o proceder humano - reside  na motivação da conduta dos dois responsáveis pela tragédia. Pelo pouco que se sabe, são pessoas com formação acadêmica mediana, um deles adolescente com 17 anos de idade e o outro com 25, egressos da instituição agredida.

É até comum e corriqueiro o alardeamento dado pela imprensa nacional e internacional, além das redes sociais, aos ataques ocorridos em escolas de outros países com consideráveis números de alunos abatidos, como se fosse uma verdadeira apologia ao crime, embora a intenção seja a de passar uma informação jornalística de credibilidade.

O espírito de imitação é inerente ao ser humano, principalmente ao jovem ainda inexperiente e que trabalha com instintos imitativos, buscando o sensacionalismo. Fernandes, com a argúcia necessária, argumenta: “De sorte que os meios de comunicação de massa, notadamente os jornais e televisão, além de divulgarem com mórbido alardeio a imagem dos crimes e dos criminosos, não raro de maneira complacente e amistosa, também propagam em suas minudências os meios e as técnicas de consecução dos delitos!.”[1]

Tanto é verdade que, pelo comportamento dos assassinos, é fácil concluir que projetaram sua linha de ataque com certa semelhança aos ocorridos no exterior, cópia autêntica que foi do caso da escola de ensino médio Columbine, no Colorado, Estados Unidos, pois se armaram de forma a transparecer que adredemente tinham um plano bem entabulado para provocar danos letais ao maior número possível de alunos, contando, inclusive, com artefatos explosivos que seriam detonados com a maciça presença de alunos no horário do intervalo. Além do que o adolescente agressor, um pouco antes de ingressar na escola, postou várias fotos na rede social, exibindo um revólver e usando um lenço com desenho de caveira no rosto.

Tudo, é claro, preparado para ser apresentado posteriormente quando do rastreamento no computador, que seria feito pela polícia O importante é que ficasse registrado que o ataque seria bem sucedido e que os objetivos seriam atingidos no iter criminis entabulado Não se pode desprezar também, pelo modus operandi dos agentes, a nítida influência dos games violentos que certamente provocaram estímulos para a prática dos comportamentos agressivos contra qualquer pessoa que se encontrasse no local, sem a identificação de alvos selecionados.

Bem se vê que os agressores ingressaram num labirinto de psicose belicosa e, dentro de uma evolução crescente, deram espaços para a predisposição de repetir ataques ocorridos com sucesso anteriormente que, para eles, eram considerados normais, um verdadeiro ato heroico e compatível com a realidade do momento.

As variações sociais são muitas e constantes, principalmente as que são provenientes de jovens que carregam problemas de convivência e praticam condutas sem nexo, com a intenção de demonstrar seu inconformismo com determinada situação e em desacordo com o regramento da sociedade. Sem qualquer dúvida, podem influenciar outros jovens que se encontram na mesma linha de pensamento e desencadear outro ataque com iguais ou maiores proporções.

O nível de tolerabilidade social, a cada agressão coletiva experimentada, vai atingindo índices insuportáveis e a população, já quedada por seguidas hostilidades, vê cada vez mais distantes as tentativas de harmonização e humanização social.

Pode se concluir que não foi um massacre com a intenção de obter qualquer tipo de vantagem e nem de levantar um brado de inconformismo com o sistema educacional, mas sim para realização de uma fantasia errônea e nefasta, em que ambos eram os atores principais, gerada e produzida no seio da própria sociedade.

 

Eudes Quintino de Oliveira Júnior, promotor de justiça aposentado/SP, mestre em direito público, pós-doutorado em ciências da saúde, reitor da Unorp, advogado.

 

 

 


[1][1] Fernandes, Newton/Walter. Criminologia integrada. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1995, p. 408.

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