Homo chip

Eudes Quintino de Oliveira Júnior, promotor de justiça aposentado/SP, mestre em direito público, pós-doutorado em ciências da saúde, reitor da Unorp, advogado. - 12/03/2019

Quanto mais se estendem os tentáculos da biotecnologia ofertando multiplicidade de ações ordenadas com a finalidade de buscar uma vida mais longa e, ao mesmo tempo, mais saudável para o homem - não que seja essa a única missão da ciência, mas, pelo menos, é ambição do ser humano atingir uma longevidade há muito tempo desejada, - maior se torna a perplexidade da humanidade. Isto porque as novas linhas de pesquisa carregam não mais ficção ou uma utopia de um viver centenário, mas sim de realidades programadas para um futuro bem próximo. E muitas vezes a ciência trilha por vias exclusivas de seus interesses, que são propostas de acordo com a continuidade de suas linhas de pesquisa, e não da conveniência do próprio homem.

Tudo caminha para um desvendar dos mistérios que ainda envolvem o ser humano, apesar de todo o avanço conquistado, tanto na área de fecundação embrionária como da morte. A cada dia que passa, causa não só motivo de júbilo pelo êxito mas, também, paralelamente, de preocupação em razão de muitas inquietações existentes a respeito das novas conquistas que podem ultrapassar as raias da ética costumeira. Vale observar que, a cada marco anunciado, não se tem mais o tempo suficiente para se fazer o crivo da necessidade e conveniência em favor do homem, justamente por estar sendo superado por novo atrativo promissor anunciado a quatro cantos.

Um assunto que merece a pausa necessária e deve ocupar pautas de debates é a recente edição do BodyHacking, ocorrida no estado do Texas, Estados Unidos, com a finalidade de discutir e promover as novas tecnologias existentes para introdução no corpo humano, por meio de próteses e implantes, de minúsculos computadores que possam gerar senhas, aprovar transações em moedas digitais, abrir portas, medir a temperatura humana e outras especialidades mais.

Quer dizer, até então, o homem praticava todas essas operações mediante a utilização de um aparelho extracorpóreo. Agora a intenção da ciência é abolir tal dispositivo e inserir implantes no corpo humano que, de mãos limpas, mas “chipado”, possa, por exemplo, controlar sua pressão cardíaca, temperatura e outros dados necessários para enviá-los a um médico.

De nada adiante ficar estarrecido e nem mesmo contrariar tamanha tecnologia porque não só vingará, como progredirá nesta direção. Por mais significativos que sejam os progressos científicos em áreas ainda pouco exploradas, eles serão considerados pela ciência como ensaios ainda incipientes. Daí que a biotecnologia avança a passos largos e sem qualquer indício de recuo e, rapidamente, atingirá os objetivos propostos. A não ser que o homem, seu destinatário natural, acenda o farol vermelho e estanque todo esforço concentrado, por não ter mais interesse, o que é difícil na atualidade. Basta ver que os alimentos transgênicos, que inicialmente encontraram sérias dificuldades para sua aceitação, em razão de ter sua genética modificada, o que poderia trazer algum dano para a saúde humana, fazem-se presentes nas prateleiras dos supermercados e lideram a exportação para outros países.

Com a perspicácia que lhe é natural, Harari, analisando que o incessante  caminhar da revolução tecnológica poderá excluir bilhões de humanos do mercado de trabalho, foi incisivo em afirmar: “É certo, no entanto, que as revoluções tecnológicas vão ganhar impulso nas próximas décadas, e colocarão o gênero humano diante das provações mais difíceis que jamais enfrentamos. Qualquer narrativa que busque ganhar a adesão da humanidade será testada, acima de tudo, em sua capacidade de lidar com as revoluções gêmeas na tecnologia da informação e na biotecnologia.”[1]

As propostas de facilitação da vida humana pela inserção de dispositivos tecnológicos são por demais interessantes e atrativas, um verdadeiro encantamento, dando a sensação de domínio da ciência em favor do homem. Mas será que o braço da biotecnologia irá se limitar a trazer cada vez mais dividendos de conforto para o homem, ofertando a ele, de pronto, todas as informações necessárias, sem que ele utilize seu cérebro e seu pensar para realizar suas atividades do dia a dia? Um longa manus atrelado ao seu braço irá realizar somente as operações para as quais foi programado e o homem, nesse caso, ficará dependente e refém da tecnologia a ele imposta?

A humanidade não se posiciona contra tais avanços científicos, apesar dos inconvenientes que possam trazer. O que quer e anseia, na realidade, com muita expectativa é que, com o poderio tecnológico existente na área da saúde, sejam apresentadas soluções definitivas e consistentes para várias doenças que limitam e provocam a morte prematura das pessoas.

Vale a reflexão.

 

Eudes Quintino de Oliveira Júnior, promotor de justiça aposentado/SP, mestre em direito público, pós-doutorado em ciências da saúde, reitor da Unorp, advogado.

 


[1] Harari, Yuval Noah.21 lições para o  século 21. Tradução: Paulo Geiger.  São Paulo: Companhia das Letras, 2018, p.38.

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