“O perdão é um direito humano”, defende palestrante de seminário que foca a justiça restaurativa

jornalista Cinthia Abreu - 31/03/2016

Em muitos casos, a punição e condenação cumprem a lei, mas não conseguem ajudar quem sofreu uma ofensa e nem quem a praticou, acarretando em boa parte deles traumas e estresses e até a reincidência de delitos. Na opinião de muitos especialistas, porém, a Justiça Restaurativa (em que réus e agredidos ficam face a face) pode ajudar a mudar a trajetória dos envolvidos. Nestes casos, o perdão, o diálogo e a reconciliação são as ferramentas mais eficazes do que a punição tradicional. Isso é o que afirma a coordenadora da Espere – Escola de Perdão e Reconciliação no Brasil, Maria do Socorro Dantas. Em entrevista exclusiva, ela descreve sobre a importância de ferramentas alternativas como o perdão e o diálogo na solução de conflitos, assuntos esses que serão foco da palestra que ela ministra nesta sexta-feira, 1º, no Seminário sobre Práticas de Justiça Restaurativa na Área da Violência Doméstica contra as Mulheres.

 

O que é a Espere?

A Espere é um método de formação humana que surgiu para atender a necessidade das vítimas de todo tipo violência. Um método estruturado em módulos com foco no perdão como cultura política e um direito humano. Trabalhamos o perdão numa perspectiva de cuidado com o que falo e penso. E numa segunda parte numa perspectiva de restaurar relações.

 

Explique um pouco também sobre o que é a Justiça Restaurativa e sobre como é o trabalho da Espere neste processo?

A Justiça Restaurativa um movimento que se centra com maior vigor no dano causado às vítimas e às comunidades do que nas leis vulneradas. Ela vai além da condenação e da punição e aborda as causas e as consequências das transgressões, por meio de formas que promovam a responsabilidade e a justiça com a restauração das relações dentro da comunidade. Elas caminham juntas porque nós trabalhamos a Espere como pré-requisito para a Justiça Restaurativa. A primeira parte é um requisito pessoal, que é o perdão, e a segunda parte que é a reconciliação prepara você para ir encontrar o outro. Então, todo o encaminhamento da Espere é preparado para a Justiça Restaurativa, mas também se faz a Justiça Restaurativa sem a Espere.

 

Qual a diferença da Justiça Restaurativa com a mediação ou a conciliação?

Na conciliação há uma participação do mediador com o intuito de intervenção. No ciclo restaurativo ou na Espere você é apenas alguém que vai ajudar o diálogo com perguntas reflexivas. E também é diferente daquela neutralidade do mediado. Então, é um processo único.

 

Esse trabalho é quase um acompanhamento psicológico, qualquer pessoa está apta a trabalhar?

Não é uma terapia, mas o resultado é terapêutico. A pessoa precisa ter um perfil, mas não precisa ser um advogado, psicólogo ou assistente social, basta que ela tenha facilidade de promover o diálogo, saber escutar, intervir na hora certa. Por exemplo, uma pessoa dominadora não pode participar porque ela tem uma dificuldade de trabalhar com o outro sem dominar a situação.

 

Os principais casos atendidos são no campo de violência contra a mulher?

Não. A Espere surgiu para atender qualquer tipo de violência e é adaptada a qualquer realidade. Então, hoje ela se tornou uma rede internacional e cada País trabalha a sua demanda mais forte. Há países, por exemplo, que direcionaram essa prática para a prevenção da violência, enquanto outros direcionaram mais para a ressocialização de adolescentes, jovens e adultos em prisão. No Brasil temos diversas áreas de atuação como adolescentes e jovens em conflito com a Lei, autoajuda, pastoral carcerária e mães em prisão, audiências de custódia, juizado especial de violência contra a mulher e muito mais.

 

E quais os resultados já obtidos?

Temos excelentes resultados em todo o País. Em boa parte das cidades nós tivemos em torno de 5% de reincidência da violência contra a mulher. Normalmente, os agressores quando iniciam o processo se veem como vítimas também, mas ao longo do processo eles vão assumindo a sua responsabilidade e percebendo as mudanças. Um juiz em Minas Gerais, por exemplo, no ano passado me disse que a reincidência era em torno de 58% por cento e, depois do trabalho da Espere, que chamamos de “Perdão e Justiça”, estes índices caíram para 8% de reincidência.

 

O perdão, o diálogo e a reconciliação tem mais efeito do que as práticas punitivas tradicionais?

O perdão é um direito humano e, por isso, ele precisa estar dentro das políticas que envolvem o campo judicial. Normalmente, as dificuldades dos casais estão na dificuldade do diálogo, da comunicação. Então, o que um diz machuca, fere o outro, aí o outro vai e revida. Tudo o que você faz com o propósito de violência – ‘eu vou punir para você se corrigir’, é uma ofensa e isso tem uma reação, e a reação não é de bom grado. É todo um trabalho para você se autorresponsabilizar pelo que você disse ou o que você faz. Então eu não culpo ninguém pelo que eu fiz ou disse, tenho o que avaliar o que foi que eu disse que feriu o outro e a mim, preciso saber o que eu disse que feriu o outro e quais consequências vai ter para o outro e para mim, e como é que eu posso consertar o que eu fiz.

 

Com base na orientação desses relacionamentos e solução de conflitos, é possível concluir que é muito difícil perdoar?

O perdão é difícil, mas quando as pessoas se dão conta dos benefícios que elas alcançam com o perdão, todas as portas se abrem. Enquanto você não percebe a importância do perdão, você fica só no campo da autodefesa, achando que é muito forte, tem poder, aí você não percebe que, quanto mais faz isso, mais você se desautoriza, se ofende, se desrespeita e faz com o que o outro também a desrespeite.

 

E no caso da violência contra a mulher, quando ela se decide pelo perdão, ela não se sente frágil?

Quando a gente pensa e age achando que vai mudar o outro, mais a gente se ofende com isso e se frustra. Quando a mulher faz todo o processo e percebe que ela é que precisa mudar a direção do seu olhar, ela começa a perceber as consequências do seu novo olhar na família e aí a gente obtém resultados incríveis. Normalmente, a gente tem mágoa de quem mais a gente ama, porque criamos expectativas em cima das pessoas, e quando não há uma resposta conforme essa expectativa, nós nos decepcionamos e isso gera em nós mágoas.

 

Quanto aos agressores, geralmente a agressão é justificada com violências em que eles foram vítimas?

O nosso amor maior geralmente temos por nossos pais ou avós quando criança. E, quando essa pessoa que diz que me ama me pune, vem a frustração, e é aí que a gente gera raiva, ódio, construindo uma relação de amor e ódio. E essas mágoas que a gente traz de criança, que a gente não conseguiu resolver porque os pais não souberam dialogar, acaba acarretando nos nossos relacionamentos futuros. Então, se você não sabe trabalhar essa mágoa e se torna adulto, se casa, você transforma essa mágoa em uma vingança quase intuitiva. E aquilo que foi feito com você quando criança acaba refletindo na sua forma de agir nesse relacionamento quando adulto. E isso acaba impactando na vida, levando o casal a se distanciar. Então, é preciso que primeiramente ele perdoe essa violência passada para depois reconhecer o seu erro.

 

É difícil recuperar a autoestima e o relacionamento após esse perdão?

O ato de violência fere as nossas potencialidades e fere a nossa relação com o outro, a autoconfiança e também o sentido das coisas, a minha animação pelas coisas, pelo meu ideal e tudo mais que me motiva a lutar e a Espere tem todo um programa para potencializar as principais áreas afetadas. Nós temos muitos resultados que não tem relatos de reincidências na violência. O que eu acho interessante é que o processo leva a um engajamento das pessoas, não é imposição, ninguém faz por obrigação. São abordagens que trabalham a autorresponsabilização, então a pessoa toma a consciência que ela é responsável pelo que fez e o perdão é uma questão pessoal. Então eu que quero me libertar, e eu me libertando eu liberto o outro e soluciono o meu problema. São ações que trabalham do individual para o coletivo.

 

Entrevista concedida à jornalista Cinthia Abreu

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